Acordar – Parte 1

Acordo finalmente abraçado a ti naquela terça feira de Setembro, era cedo e o sol rasgava levemente pelos teus cortinados vermelhos, dou-te um beijo ao qual tu reages com um terno gemido. Esta noite foi diferente de todas as outras, ficámos finalmente frente a frente, olhos nos olhos, sem nada para contar ou dizer, só os nossos olhos fitados uns nos outros. Levei-te à Ericeira a jantar, pelo caminho contaste-me todas as tuas aventuras, e de seguida contei-te eu as minhas, passado tantos anos finalmente encontramos-nos de vez, no momento ideal, os astros alinham-se a nosso favor.

Puxo-te a cadeira no restaurante, tu dizes que não gostas mas sei perfeitamente que mentes, os teus olhos nunca mentem, sempre foram incapazes de me contar uma mentira. Bebemos duas garrafas de vinho, e as línguas soltam-se, partilhamos a sobremesa, e já as mãos se tocam, não se largam, só se querem sentir juntas. As minhas tremem como de costume, hoje mais perante tal surpresa. Pago a conta, tu resmungas, nunca gostaste que tomassem conta de ti, mas eu quero tomar conta de ti. Levanto-me rapidamente e vou puxar-te a cadeira, chamas-me machista, mas eu puxo-te pela mão e encosto-te a mim, dou-te um beijo na cara e tu chateada, largas-me imediatamente da mão.

Saímos do restaurante, estavas enfurecida, já não me dás a mão, procuro o miradouro mais perto para tirar um pouco de álcool do sangue, estaciono e deitamo-nos na relva a ver as estrelas a rodar à nossa volta. Passado uma hora encostas-te a mim e dás-me a mão, depois de eu tantas vezes tentar agarrar a tua. Finalmente trocamos um beijo, perfeito! Passado 9 anos desde a primeira vez que te vi, acontece aquilo que eu sonhei. Saímos do miradouro eram 0 horas, vamos a um dos nossos sítios favoritos no Cais do Sodré, pedimos ambos uma Guinness em uníssono enquanto a empregada esboça um sorriso para nós. Não largamos a mão um do outro nem por um minuto.

Ficamos até às 2, a trocar olhares e sonhos, vamos para casa, eu amanhã tenho de trabalhar. Ofereces-me cama outra vez, e desta vez digo não digo que não, estacionamos longe, pelo caminho até tua casa não nos largamos, nunca alguma vez demorei tanto tempo para fazer tão breve distância.

Chegados ao quarto, começo a despir-te peça por peça, tu não ficas atrás, quando ficas nua, paro e belisco-me, será um sonho pergunto eu, antes de me entregar a esta paixão. Entregamos-nos por completo, esquecemo-nos da tua companheira de casa, mas ela não se esquece, de 30 em 30 minutos bate na parede para nos relembrar que não estamos sozinhos, nenhum de nós ouve. Libertamo-nos de tudo aquilo que estava preso ao fim de tanto tempo.

Levantas-te da cama, e enquanto o luar brilha no teu corpo nú, o meu coração corre numa corrida sem fim, regressas, deitas-te ao meu lado e adormecemos finalmente, suados e esgotados. Acordo finalmente abraçado a ti naquela terça feira de Setembro, era cedo e o sol rasgava levemente pelos teus cortinados vermelhos, dou-te um beijo ao qual tu reages com um terno gemido. Acordas também e dizes bom dia com um beijo, vou tomar banho, pelo corredor cruzo-me com a Susana, está de mau humor e com olheiras, digo bom dia ao que ela responde qualquer coisa sem nexo, não oiço ainda bêbado da noite passada contigo. Juntas-te a mim no banho, lavamos-nos mutuamente, ficamos o que parece uma eternidade abraçados enquanto a água quente nos escorre pelos corpos.

Saímos para ir tomar o pequeno almoço, vamos à Confeitaria Marquês do Pombal, enquanto comemos, dizes-me: “Amanhã ao final da tarde vou para o Porto para me despedir da minha mãe, e na semana seguinte para os EUA.”

Continua…

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